Documento revela que administração Trump condicionou qualquer redução de taxas a concessões profundas em setores estratégicos brasileiros, como minérios críticos, agronegócio e tecnologia, em movimento classificado por analistas como uma tentativa de “capitulação” econômica.
Da Redação
BRASÍLIA (DF) – Uma proposta comercial confidencial enviada pela administração de Donald Trump ao governo brasileiro no início de 2026 revela uma estratégia de pressão máxima de Washington sobre Brasília. Segundo o documento, obtido com exclusividade, os Estados Unidos exigiram que o Brasil bloqueasse investimentos chineses em setores de terras raras e minérios críticos, além de eliminar barreiras tarifárias e regulatórias para produtos americanos. Em contrapartida, a Casa Branca oferecia apenas uma promessa genérica e condicional de redução de taxas sobre exportações brasileiras. A informação foi trazida pelo jornalista Jamil Chade no site do ICL Notícias.
O texto, que tem o formato de uma contraproposta a um rascunho de Declaração Conjunta apresentado pelo Brasil em novembro de 2025, expõe o que observadores de política externa classificam como uma tentativa de subordinar a soberania econômica nacional aos interesses dos EUA. A estratégia segue a lógica do “ou se alinha, ou será punido”, criando um dilema para o Itamaraty em um momento de reconfiguração das cadeias globais de suprimentos.
O Fator China e os Minerais Críticos
Um dos pontos mais sensíveis do documento é a exigência explícita para que o Brasil adote medidas que limitem investimentos de “atores não orientados pelo mercado” e “entidades estrangeiras de preocupação” nos setores de mineração e refino. Embora a China não seja citada nominalmente, esta é a terminologia padrão utilizada pela atual administração americana para se referir a Pequim.
O texto chega a mencionar especificamente a necessidade de “revisar a venda da operação de níquel da Anglo-American”, garantindo um “processo justo” para que empresas dos Estados Unidos possam investir no setor de minerais críticos brasileiro, em clara tentativa de deslocar a influência asiática na cadeia de suprimentos de recursos estratégicos.
Concessões em Cascata
Além da geopolítica dos minérios, a lista de exigências econômicas é extensa e abrange praticamente todos os setores produtivos:
- Agronegócio: Eliminação total de tarifas sobre o etanol americano e a criação de um grupo de trabalho para impedir que o Brasil restrinja o acesso ao mercado com base no uso de certos termos para carne e queijo.
- Indústria e Saúde: Fim das tarifas sobre químicos, veículos, autopeças e frutos do mar. O documento exige ainda que o Brasil aceite veículos produzidos nos EUA que sigam apenas as normas de segurança americanas, e que reconheça certificados do FDA (agência reguladora dos EUA) para dispositivos médicos e farmacêuticos sem exigências adicionais de fiscalização local.
- Tecnologia e Digital: O Brasil seria pressionado a apoiar uma moratória permanente de tarifas sobre transmissões eletrônicas na OMC e a garantir que novas regulações de concorrência e conteúdo em mídias sociais sejam previamente consultadas e “justas” para as grandes empresas de tecnologia dos EUA.
- Aeroespacial: Remoção de todas as barreiras para a venda de jatos comerciais americanos no país.
A “Contrapartida” Americana e o Impasse Diplomático
Diante de demandas que implicam mudanças legislativas e regulatórias profundas no Brasil, a contrapartida oferecida pelos EUA no documento é vaga. O texto menciona a intenção de reduzir a tarifa aplicada a certos produtos brasileiros incluídos em uma Ordem Executiva de julho de 2025, mas deixa o percentual de redução em aberto (indicado como “[XX] por cento ad valorem“), condicionando o avanço a uma “demonstração de boa vontade” do governo brasileiro.
A postura dura é corroborada por uma carta assinada em 9 de janeiro de 2026 pelo representante de Comércio dos EUA (USTR), Jamieson Greer. No texto, ele expressa “decepção” com o distanciamento das posições e alerta que a política americana “não irá mudar sem melhoria significativa de acesso ao mercado e de proteção para os negócios dos EUA”.
Reações e Contradições
A revelação do teor das exigências gera atrito com a narrativa pública de membros do próprio governo americano. O secretário de Estado, Marco Rubio, tem afirmado nas últimas semanas que o governo Lula não agiu de “boa-fé” nas negociações. No entanto, o documento vazado sugere que o impasse se deve à natureza maximalista das demandas de Washington, e não à falta de disposição brasileira.
Internamente, a proposta também divide opiniões. Enquanto setores mais alinhados ao livre comércio, como a Fiesp, e ex-autoridades como o ex-embaixador Roberto Azevêdo, sugeriram recentemente que o Brasil deveria buscar negociar nos termos apresentados pelos EUA para evitar retaliações, o vazamento deste documento reforça os alertas de grupos soberanistas e do próprio Ministério do Desenvolvimento sobre os riscos de desmontar a proteção industrial e sanitária nacional em troca de concessões incertas.
Autoridades do governo federal estão reunidas em Brasília para preparar a resposta do Brasil a aplicação das novas tarifas, em vigor desde quarta-feira, 15 de julho.


