refeitura aliada à cúpula do União Brasil recebeu R$ 80 milhões em recursos sem identificação de autoria; mecanismo contorna determinação do STF e acende alerta sobre transparência no Orçamento da União
BRASÍLIA (DF) — Um esquema de repasse de recursos públicos por meio de emendas parlamentares sem identificação de autoria está no centro de uma nova controvérsia que envolve a prefeitura de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e a direção nacional do União Brasil. O município recebeu R$ 80 milhões em emendas de comissão indicadas pela liderança do partido, um mecanismo que tem sido criticado por órgãos de controle e entidades da sociedade civil por ferir a transparência exigida pelo Supremo Tribunal Federal (STF). As informações estão no UOL.
As emendas, registradas formalmente como “de liderança”, não identificam qual deputado ou senador efetivamente indicou o recurso, configurando o que especialistas chamam de “laranjas institucionais”. Na prática, os líderes partidários aparecem como autores formais de emendas que, na realidade, são distribuídas entre diferentes parlamentares sem registro oficial, ocultando a origem real da indicação e dificultando o controle social sobre o uso do dinheiro público.
O caso de Belford Roxo não é isolado. Levantamentos recentes apontam que o União Brasil é o segundo partido com maior volume desse tipo de emenda na Câmara dos Deputados, totalizando R$ 289 milhões em 2025. O mecanismo funciona como uma espécie de orçamento paralelo, que opera à margem das exigências de transparência estabelecidas pelo STF após a derrubada do chamado “Orçamento Secreto” (emendas de relator ou RP-9).
Articulação política e judicial
A situação ganhou contornos mais delicados após a visita do presidente nacional do União Brasil, Antônio de Rueda, ao então prefeito Márcio Canella em 2025. Na ocasião, Rueda declarou publicamente que estava articulando a liberação de recursos para a cidade junto a diversos ministérios. O dirigente, que nunca ocupou um mandato eletivo, planeja disputar uma vaga de deputado federal em “dobradinha” com Canella, que renunciou à prefeitura em abril para concorrer ao Senado.
No entanto, os planos da chapa foram abalados quando Canella foi preso em flagrante pela Polícia Federal durante a Operação Unha e Carne, por portar um fuzil. A prisão ocorreu em meio a investigações sobre esquemas de corrupção e desvio de recursos públicos. Embora tenha sido solto pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, com o uso de tornozeleira eletrônica, o caso pode levar o ex-prefeito a desistir da candidatura ao Senado.
Tipos de emendas e valores bilionários
Para compreender a magnitude do escândalo, é necessário entender como funcionam as emendas parlamentares no Brasil. Existem diferentes modalidades: as emendas individuais (propostas por cada parlamentar), as de bancada (apresentadas coletivamente pelos estados), as de comissão (indicadas pelas comissões temáticas) e as de relator (RP-9), estas últimas alvo de diversas ações de inconstitucionalidade.
No Orçamento de 2025, o volume total de recursos destinados ao atendimento das demandas de parlamentares foi estimado em cerca de R$ 58,4 bilhões. Desse montante, aproximadamente R$ 24,7 bilhões correspondem a emendas individuais, R$ 14,3 bilhões a emendas de bancada e entre R$ 11,5 bilhões e R$ 11,7 bilhões a emendas de comissão, somando Câmara e Senado.
Cada deputado tem direito a cerca de R$ 37 milhões em emendas individuais, enquanto cada senador pode indicar aproximadamente R$ 68,3 milhões. Esses recursos são impositivos, ou seja, de execução obrigatória pelo governo federal, conforme determinação da Emenda Constitucional nº 105/2019.
A distorção das emendas de liderança
O problema central reside na forma como algumas emendas de comissão têm sido registradas na Câmara dos Deputados. Enquanto o Senado Federal informa o nome do parlamentar autor nas emendas de comissão, a Câmara tem registrado volumes significativos sob a rubrica de “emendas de liderança”, sem identificar os deputados que escolheram os destinos dos recursos.
Segundo dados de órgãos de transparência, a Câmara destinou cerca de R$ 1,3 bilhão em 2025 nesse formato. Essa prática é considerada uma forma de burlar a determinação do STF, que exige a identificação plena da autoria para garantir a transparência e a responsabilização no uso do dinheiro público. Especialistas alertam que o mecanismo opera em lógica semelhante à do antigo orçamento secreto, criando uma zona de opacidade que favorece o clientelismo e o uso eleitoral dos recursos.
Paralelo com outras investigações
O caso do União Brasil guarda semelhanças com investigações recentes envolvendo outros partidos. O uso do mesmo tipo de emenda por Valdemar Costa Neto, presidente do PL, motivou recentemente uma operação da Polícia Federal. As investigações apontam para um padrão sistemático de uso das emendas de liderança para financiar aliados políticos e fortalecer bases eleitorais, sem o devido controle social.
Entidades como a Transparência Brasil têm pressionado por mudanças na regulamentação das emendas parlamentares, defendendo o fim das emendas de liderança e a obrigatoriedade de identificação nominal de todos os autores de emendas. A organização argumenta que a falta de transparência corrói a confiança nas instituições democráticas e facilita a captura do Orçamento da União por interesses particulares e eleitorais.
O futuro das emendas parlamentares
O escândalo das emendas sem dono reacende o debate sobre a necessidade de reformas no sistema orçamentário brasileiro. Especialistas defendem que, além da identificação obrigatória dos autores, seja estabelecido um limite mais rigoroso para o volume total de emendas parlamentares e que sejam criados mecanismos mais efetivos de fiscalização e punição para casos de desvio de finalidade.
Enquanto isso, casos como o de Belford Roxo continuam a levantar questões sobre a efetividade das decisões do STF e a capacidade do sistema político brasileiro de garantir a transparência no uso dos recursos públicos. Com eleições se aproximando e bilhões de reais sendo distribuídos por meio de emendas parlamentares, o tema tende a ocupar cada vez mais espaço no debate público e nas investigações de órgãos de controle.


