Seminário histórico une de secretários a CEOs e a linha de frente da Defesa Civil, apontando a única saída: a colaboração para financiar e construir a defesa das cidades contra a fúria do clima.
Por Luiz André de Azevedo Pires
Na última quarta-feira, 10 de julho, o auditório do Museu do Amanhã, um ícone arquitetônico projetado para nos fazer contemplar o futuro, foi palco de uma discussão sobre o presente mais urgente e brutal que o Brasil enfrenta. O tema do seminário “Eventos Climáticos – Cidades Resilientes” pode soar técnico, quase burocrático, mas o que se viu ali foi um encontro denso, um verdadeiro conselho de guerra de quem lida com a ponta mais afiada da crise climática.
Enquanto os painéis se sucediam, a pergunta que não estava no roteiro, mas que pairava sobre cada fala, era uma só: quem vai pagar a conta? A conta da prevenção, da reconstrução, da adaptação e, no limite, a conta das vidas perdidas quando nada disso é feito a tempo.
O evento, realizado pela consultoria Orlando Thomé & Associados, não foi um mero encontro de especialistas para uma plateia de iniciados. A lista de participantes, um documento de mais de dez páginas, revela o peso e a urgência da pauta. Estavam lá o Secretário de Estado do Ambiente e Sustentabilidade do Rio, Bernardo Rossi; o presidente do INEA, Renato Jordão; prefeitos como Rafael Miranda, de Cachoeiras de Macacu – município que conhece de perto o poder das águas –; o vereador Diego Faro, da Comissão de Meio Ambiente da capital; e um nome que simboliza a dimensão da tragédia que serve de alerta máximo ao país: Gabriela Capeletto, da Secretaria da Reconstrução Gaúcha.
A presença de Capeletto não foi protocolar. Foi um soco de realidade. O painel “O que aprendemos?”, que contou com sua participação ao lado do Coronel Rinaldo de Araújo Monteiro, da Defesa Civil de São Paulo, trouxe para o ambiente climatizado do museu o cheiro de lama e a dor da perda que ainda assola o sul do país. A discussão deixou de ser sobre modelos teóricos de resiliência e passou a ser sobre a logística do desespero: como reerguer uma cidade? Como lidar com milhares de desabrigados? E, a pergunta mais difícil, como evitar que aconteça de novo?
O poder na mesa: do estado à concessionária
A composição da mesa de abertura já entregava o jogo. Não se tratava de um debate ambientalista clássico. Era sobre poder, gestão e, claro, dinheiro. Ao lado de Rossi e do prefeito Miranda, sentaram-se Antonio Marcos Barreto, vice-presidente da ANAMMA (Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente), e Anselmo Leal, presidente da Águas do Rio, a gigante privada que assumiu os serviços de água e esgoto em boa parte do estado.
A presença de Leal é sintomática. A resiliência de uma cidade depende de forma visceral de sua infraestrutura de saneamento, e a concessionária está no centro dessa equação. Cada chuva forte que inunda bairros e contamina rios é um problema direto para a operação e para o balanço da empresa. A adaptação climática, para a iniciativa privada, deixou de ser um slide em uma apresentação de ESG (Environmental, Social and Governance) para se tornar um fator de risco operacional e financeiro.
O mesmo pode ser dito do setor de seguros, representado na plateia por Felipe Campos, analista de sustentabilidade da CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras). O aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos climáticos está forçando uma reprecificação de riscos em todo o mundo. Apólices ficam mais caras, áreas se tornam “inseguráveis”. A presença do setor no debate indica que o mercado já está fazendo as contas da catástrofe.
A onipresença da Defesa Civil e a linha de frente municipal
Analisando a lista de inscritos, um padrão salta aos olhos: a massiva presença de agentes e gestores da Defesa Civil de dezenas de municípios. De São Fidélis, com seu superintendente Nilton dos Santos Júnior, a Casimiro de Abreu, Nova Iguaçu, Saquarema, Japeri, Mesquita e Petrópolis. Eram os operadores da linha de frente, aqueles que batem de porta em porta para alertar sobre o risco de deslizamento, que coordenam abrigos e que contam os corpos após a tempestade.
Essa capilaridade mostra que a percepção de urgência desceu do nível estadual e chegou com força total aos municípios, que são, em última instância, os mais vulneráveis e os primeiros a responder. A fala de Rafael Miranda, prefeito de Cachoeiras de Macacu, e de outros gestores municipais nos painéis, reflete essa angústia. Eles estão entre a pressão por desenvolvimento urbano, a falta de recursos para obras de contenção e a responsabilidade de proteger seus cidadãos de uma força – a natureza em fúria – que não respeita limites geográficos ou orçamentários.
O seminário serviu como uma catarse e uma troca de experiências para esses gestores. Painéis como “Gestão de Riscos de Desastres” e “Cidades Resilientes” funcionaram como sessões de terapia em grupo e laboratórios de soluções, onde um prefeito poderia ouvir do Coordenador do RJ Sustentável, Coronel Kempers, sobre novas estratégias de monitoramento, ou aprender com a Professora Mestre Raquel Cruz, da PUC-Rio, sobre o potencial das “Infraestruturas Verdes” – soluções baseadas na natureza, como parques fluviais e telhados verdes, que são mais baratas e eficientes que a tradicional (e muitas vezes ineficaz) muralha de concreto.
A máquina de comunicação e o interesse do público
Um evento desse porte não vive só de conteúdo. O relatório final detalha uma robusta operação de comunicação, com publicidade no jornal O Globo (impresso e online), campanha paga em redes sociais e uma ampla cobertura de imprensa, com 35 inserções em mídia gratuita. Os números são expressivos: mais de 135 mil pessoas alcançadas no Instagram e Facebook, quase 164 mil impressões no YouTube.
A campanha no Globo Online, segundo dados do próprio veículo, alcançou uma taxa de cliques (CTR) de 0,16%, considerada “bem superior à média de 0,10%”. Isso não é apenas uma métrica de marketing. É um termômetro. Indica que o cidadão comum, ao ser exposto ao tema “O clima está mudando. E as nossas cidades, estão preparadas?”, demonstrou um interesse acima da média. A população está atenta, preocupada e, provavelmente, com medo.
O evento foi transmitido ao vivo pelo YouTube e a gravação completa está disponível, democratizando o acesso a um debate que, até pouco tempo atrás, ficaria restrito às paredes de um auditório. Essa estratégia digital, aliada à presença de nomes de peso, transformou um seminário em um fato político e midiático.
O futuro começou ontem
Ao final de um dia inteiro de debates, ficou claro que a discussão sobre cidades resilientes no Brasil de 2025 não é mais sobre o futuro. É sobre o passado recente e o presente contínuo. É sobre Petrópolis, sobre o Litoral Norte de São Paulo, sobre o Vale do Itajaí e, com uma força avassaladora, sobre o Rio Grande do Sul.
O seminário no Museu do Amanhã cumpriu o papel de catalisador, forçando um alinhamento de discurso entre atores que nem sempre dialogam. Governo, mercado, academia e sociedade civil concordam no diagnóstico: a emergência é real e a inação custará caro demais.
A grande questão, que permanece em aberto, é a da governança e do financiamento. De onde virá o dinheiro para adaptar dezenas de cidades, remover populações de áreas de risco, reconstruir infraestruturas e criar sistemas de alerta eficazes? Será do orçamento público, já estrangulado? Virá da iniciativa privada, que exigirá retorno? Será por meio de fundos internacionais?
A resposta provavelmente está em um complexo arranjo entre todas as opções. Mas, como em toda negociação que envolve cifras multibilionárias e poder, a disputa será intensa. O seminário pode não ter assinado o cheque, mas deixou claro para todos quem são os devedores. E a conta já foi apresentada.


