A batalha pela memória: Como a literatura negra se torna arma de resistência e identidade no Norte Fluminense. Com fomento federal e a presença de comunidades quilombolas, projeto desembarca em Campos para tirar do papel a reparação histórica que os livros didáticos ainda devem.
Por Luiz André de Azevedo Pires
O chão de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, é feito de camadas. Por baixo do asfalto e do concreto, repousa uma terra que testemunhou a opulência e a brutalidade das grandes fazendas de cana-de-açúcar e, ao mesmo tempo, o surgimento de territórios de resistência que ecoam até hoje. Quilombos como Machadinha, Zumbi dos Palmares e Deserto Feliz não são apenas nomes em um mapa; são a prova viva de uma história que se recusa a ser esquecida. É neste cenário, carregado de memória e disputa, que a literatura se apresenta não como um objeto de estudo distante, mas como uma ferramenta de reconexão e combate.
No próximo dia 28 de julho, o Instituto Federal Fluminense (IFF) será o palco do seminário “Encontro Marcado: Raízes da Literatura Negra Brasileira”. O nome pode soar acadêmico, mas a proposta é visceral: reunir estudantes, pesquisadores e, fundamentalmente, representantes de comunidades quilombolas para debater como a palavra escrita por mãos negras foi e continua sendo crucial na formação da identidade nacional.
A iniciativa, idealizada pela Art Cult, vai além de um evento pontual. Trata-se de um projeto itinerante, que já passou por Volta Redonda e seguirá para Cabo Frio, Itaguaí e Rio de Janeiro. O motor financeiro é um Termo de Fomento com o Ministério da Cultura, viabilizado por uma emenda parlamentar do Deputado Federal Bandeira de Mello. É a política pública, muitas vezes abstrata, materializando-se em ação cultural direta, com o objetivo claro de “lançar luz sobre essas narrativas, muitas vezes apagadas dos livros escolares”, como afirma o material de divulgação.
Em um país que ainda debate qual história deve ser contada em sala de aula, a iniciativa assume um caráter de intervenção. Não se trata apenas de celebrar a cultura afro-brasileira, mas de disputar a narrativa, de oferecer a jovens estudantes um espelho de suas próprias raízes que o currículo tradicional frequentemente lhes nega.
Os arquitetos do debate: da remição de pena à diáspora digital
Para conduzir essa conversa, o seminário traz dois nomes de peso. Marcelo dos Santos, da UNIRIO, é um especialista cuja atuação transborda os muros da universidade. Seu trabalho com projetos de remição de pena pela leitura é a prova cabal do poder transformador da literatura. Em suas mãos, um livro deixa de ser apenas um objeto para se tornar uma chave para a liberdade, literal e metaforicamente. Ele traz para o debate a dimensão social e a aplicação prática da literatura como instrumento de mudança de vidas.
Ao seu lado estará Érica Luciana de Souza Silva, doutora em Letras e docente do próprio IFF, o que cria uma ponte imediata com a comunidade local. Como membro do Grupo de Estudos Estéticas Diaspóricas (GEED) e do repositório literÁfricas, ela representa a vanguarda da pesquisa acadêmica, dedicada a catalogar, estudar e divulgar as produções africanas e afrodiaspóricas. O trabalho de Érica garante que o resgate da memória não seja um ato nostálgico, mas um processo contínuo, conectado às ferramentas digitais e às discussões teóricas mais avançadas sobre a diáspora.
A dupla de palestrantes personifica a proposta do evento: a união entre a prática socialmente engajada e a excelência acadêmica, ambas a serviço de uma mesma causa.
Machado e Firmina: O cânone em perspectiva
O ponto de partida para as discussões revela uma escolha curatorial inteligente e provocadora. Serão exibidos vídeos-trailers sobre duas obras fundamentais: “Esaú e Jacó”, de Machado de Assis, e “A Escrava”, de Maria Firmina dos Reis.
A escolha é tudo, menos óbvia. Colocar lado a lado o cânone dos cânones – Machado, cuja negritude foi por tanto tempo um tema complexo e por vezes silenciado pela crítica hegemônica – e a pioneira incontestável da literatura abolicionista no Brasil, Maria Firmina, é um ato político. É forçar o público a pensar sobre quem a história da literatura escolheu consagrar e quem ela relegou a uma nota de rodapé por mais de um século.
Enquanto Machado de Assis representa a complexidade e a genialidade que se impuseram apesar do racismo estrutural, Maria Firmina dos Reis representa a fundação, a voz que ousou, em 1859, dar protagonismo e humanidade a uma personagem escravizada. O diálogo entre os dois, mediado pelo seminário, promete ser um dos pontos altos, desestabilizando certezas e reconstruindo o panteão literário brasileiro de uma forma mais justa e completa.
“Devolvendo o protagonismo”
Talvez o aspecto mais transformador do “Encontro Marcado” seja a sua lista de convidados. O evento não é pensado para as comunidades quilombolas, mas com elas. A presença confirmada de representantes de Campos, Natividade, Quissamã, São Fidélis e São Francisco do Itabapoana é a materialização do discurso.
É o que afirma Evandro, presidente da Art Cult: “A literatura negra é uma chave para a memória, a resistência e o reconhecimento. Ao promover este encontro em Campos, estamos não só fortalecendo os vínculos entre a escola e o território, mas também devolvendo protagonismo às vozes que por muito tempo foram silenciadas”.
Essa frase resume a essência do projeto. Não é um evento de acadêmicos falando para uma plateia passiva. É uma ágora, um espaço de troca onde a sabedoria ancestral das comunidades se encontra com a pesquisa universitária, e onde os jovens estudantes podem ouvir e dialogar diretamente com os guardiões de sua própria história.
Ao fazer isso, o seminário cumpre uma função que vai além da literatura. Ele se torna um ato de cidadania cultural, de reconhecimento e de empoderamento. É, como diz Evandro, “uma forma de inspirar novas gerações a se enxergarem e se afirmarem por meio da cultura”. Em tempos de narrativas rasas e identidades fabricadas, criar um espaço para a afirmação genuína, baseada na profundidade da história e na força da palavra, é mais do que necessário. É revolucionário.
SERVIÇO
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Evento: Seminário “Encontro Marcado: Raízes da Literatura Negra Brasileira”
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Data: 28 de julho (segunda-feira)
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Horário: 10h às 13h
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Local: Auditório Cristina Bastos, Instituto Federal Fluminense – Campus Campos Centro, Rua Dr. Siqueira, 273 – Parque Dom Bosco, Campos dos Goytacazes (RJ)
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Entrada: Gratuita
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Inscrições: https://forms.gle/RAFLCB7x3Zx7ob7ZA
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Transmissão ao vivo: www.youtube.com/@Bi2uartcult


