A Rede de Proteção no BC: Como Vorcaro Transformou Diretores em “Empregados” e Construiu o Maior Escândalo Bancário do País
Investigações da PF revelam que ex-chefes da Supervisão Bancária recebiam mesada, orientavam respostas ao órgão e até alertavam sobre movimentações suspeitas; cunhado do banqueiro foi um dos maiores doadores de campanhas de Bolsonaro e Tarcísio
RIO DE JANEIRO (RJ) — A terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na quarta-feira (4), não apenas recolocou o banqueiro Daniel Vorcaro atrás das grades, mas escancarou o que investigadores consideram um dos mais sofisticados esquemas de cooptação de agentes públicos já vistos no sistema financeiro nacional. No centro da teia, dois servidores de carreira do Banco Central (BC) — Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana — são acusados de atuar como verdadeiros “funcionários” de Vorcaro de dentro da autarquia, recebendo vantagens indevidas em troca de informações privilegiadas e orientações estratégicas.
A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a operação, detalha um relacionamento criminoso que durou anos e permitiu que o Banco Master operasse com liberdade enquanto acumulava um rombo que pode ultrapassar R$ 50 bilhões para o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e investidores.
Os “Funcionários” de Vorcaro no Banco Central
Paulo Sérgio Neves de Souza: o diretor que virou consultor
Paulo Sérgio, economista formado pela PUC-SP e servidor do BC desde 1998, chegou a ocupar o cargo de chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup). Foi ele quem, em 2021, assinou a autorização para a compra do Banco Máxima por Vorcaro, operação que deu origem ao Banco Master.
Mas as investigações revelam que sua relação com o banqueiro foi muito além do dever funcional. Segundo a PF, Paulo Sérgio tornou-se “uma espécie de empregado/consultor de Vorcaro para assuntos de interesse exclusivamente privado”. Em mensagens de WhatsApp obtidas pela polícia, o servidor:
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Orientava respostas a questionamentos que poderiam ser levantados pelo próprio BC.
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Revisava documentos e ofícios que o Master enviaria à autarquia, sugerindo alterações.
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Alertava previamente sobre movimentações financeiras suspeitas identificadas pelos sistemas de monitoramento do BC, permitindo que Vorcaro “adotasse medidas para mitigar questionamentos regulatórios”.
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Recebia vantagens indevidas, incluindo a contratação de um “guia” para uma viagem à Disney, em Orlando, após Paulo Sérgio comunicar que iria aos parques da região.
Belline Santana: o chefe que cobrava pagamento
Belline Santana, também servidor do BC desde 1998 e ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, é descrito na decisão de Mendonça com o mesmo nível de envolvimento. Vice-presidente da Associação dos Supervisores de Bancos das Américas (Asba), Belline atuava como “consultor informal” de Vorcaro, discutindo temas regulatórios e estratégias para o Master.
As mensagens são contundentes. Em um diálogo, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, pergunta ao banqueiro: “Hoje tem que pagar a primeira do Belline, ok?” Vorcaro responde: “Ok”. Em outro momento: “Belline cobrando. Paga?” A resposta: “Claro”.
A PF aponta que os pagamentos eram feitos por meio de empresas de fachada e contratos simulados de prestação de serviços, criados para ocultar a natureza ilícita das transferências.
O grupo de WhatsApp e a atuação coordenada
Os dois servidores mantinham um grupo de mensagens com Vorcaro, no qual compartilhavam documentos, informações e “solicitações de apoio relacionadas a processos de interesse do Banco Master”. Ali, discutiam estratégias e Belline se manifestava sobre documentos que o banco enviaria ao departamento que ele próprio chefiava.
“Em diversas ocasiões, o investigado solicitava contato telefônico para tratar de assuntos sensíveis, indicando a intenção de evitar o registro escrito das comunicações”, destaca a decisão de Mendonça.
As Conexões Políticas e o Papel de Campos Neto
O período da desregulação (2019-2023)
A escalada de Vorcaro no sistema financeiro coincidiu com a gestão de Roberto Campos Neto na presidência do Banco Central, indicado pelo então presidente Jair Bolsonaro. Foi um período marcado por profunda desregulação do sistema financeiro nacional, com flexibilização de normas e incentivo à atuação de bancos digitais e fintechs.
Paulo Sérgio Neves de Souza comandou a Diretoria de Fiscalização do BC exatamente entre 2019 e 2023, período em que Vorcaro recebeu autorização para comprar o Banco Máxima e iniciar sua expansão agressiva.
De acordo com reportagem do Estadão, Campos Neto tinha conhecimento dos problemas de liquidez enfrentados pelo Banco Master ao longo de 2024, mas optou por não adotar medidas como intervenção ou liquidação da instituição. A decisão de intervir só veio em novembro de 2025, já na gestão de Gabriel Galípolo, atual presidente do BC indicado pelo presidente Lula.
Fabiano Zettel: o cunhado e megadoador de campanhas
Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e também preso na operação, é apontado pela PF como o responsável por operacionalizar os pagamentos ao núcleo de corrupção e ao braço de intimidação. Mas seu papel vai além: segundo o Sindicato dos Bancários de SP, Zettel foi o maior doador das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022.
A informação adiciona uma camada política ao escândalo, embora até o momento não figurem pessoas com foro privilegiado entre os investigados — o que justifica a manutenção do caso no STF é apenas o envolvimento de autoridades com foro, ainda não identificadas.
Cronologia: A Escalada de Vorcaro (2019-2026)
2019
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Paulo Sérgio Neves de Souza assume a Diretoria de Fiscalização do BC, sob presidência de Campos Neto. Inicia-se período de desregulação do sistema financeiro.
2021
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Vorcaro adquire o Banco Máxima, com autorização assinada por Paulo Sérgio. A instituição é rebatizada como Banco Master.
2023
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Fim da gestão Campos Neto na presidência do BC, mas os servidores cooptados permanecem em postos-chave.
2024
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Investigações do MPF começam a apurar indícios de fabricação e venda de títulos de crédito falsos.
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Campos Neto, ainda no cargo, é alertado sobre problemas de liquidez do Master, mas não intervém.
Novembro de 2025 (1ª Fase da Compliance Zero)
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PF deflagra primeira fase da operação. Vorcaro é preso preventivamente, mas solto dias depois pelo TRF-1, passando a usar tornozeleira eletrônica.
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Banco Central decreta liquidação extrajudicial do Master.
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Outros executivos do banco também são presos e depois soltos.
Janeiro de 2026
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BC afasta cautelarmente Paulo Sérgio e Belline após investigação interna, mas mantém-nos como funcionários. Ambos chegam a receber salários próximos ao teto do funcionalismo (até R$ 45,9 mil) mesmo afastados.
4 de março de 2026 (3ª Fase da Compliance Zero)
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PF prende novamente Vorcaro, desta vez em caráter preventivo, além de Fabiano Zettel, Luiz Phillipi Mourão e Marilson Roseno da Silva.
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Justiça determina afastamento dos servidores do BC, uso de tornozeleiras eletrônicas e proibição de contato com investigados.
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Bloqueio de bens de até R$ 22 bilhões.
5 de março de 2026
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Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário” que comandava o núcleo de intimidação e recebia R$ 1 milhão mensal, é encontrado morto na cela da PF em Belo Horizonte.
A Estrutura Criminosa em Quatro Núcleos
A PF mapeou a organização criminosa liderada por Vorcaro em quatro frentes de atuação:
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Núcleo Financeiro: Responsável pela estruturação das fraudes contra o sistema financeiro, incluindo a venda de títulos de crédito falsos.
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Núcleo de Corrupção Institucional: Focado na cooptação de funcionários públicos do Banco Central — exatamente o papel de Paulo Sérgio e Belline.
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Núcleo de Ocultação Patrimonial e Lavagem de Dinheiro: Gerido por Fabiano Zettel, utilizava empresas interpostas para pagar os envolvidos e ocultar ativos.
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Núcleo de Intimidação e Obstrução de Justiça: Conhecido como “A Turma”, liderado por Luiz Phillipi Mourão, responsável por monitorar e ameaçar jornalistas, ex-funcionários e concorrentes. O grupo chegou a planejar forjar um assalto para “quebrar todos os dentes” do jornalista Lauro Jardim.
O Que Dizem as Defesas
A defesa de Daniel Vorcaro nega todas as acusações. Em nota, afirma que o empresário “sempre esteve à disposição das autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações desde o início, e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça”.
Os advogados de Fabiano Zettel informaram que ele se apresentou à PF e que não teve acesso às investigações. As defesas de Paulo Sérgio, Belline e dos demais investigados ainda não se manifestaram ou não foram localizadas.
O Banco Central, em nota, afirmou que identificou os indícios durante revisão interna, afastou os servidores cautelarmente e repassou as informações à PF, classificando a operação como “passo essencial para o pleno esclarecimento dos fatos”.


