quarta-feira, 10 de junho de 2026
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“A Política ama a traição”: O erro estratégico que fragmentou o Governo do Rio

 

Por Marco Antonio Marinho dos Santos
Especial para o Portal Meu Brasil

 

“A política ama a traição.” A frase circula nos grupos políticos fluminenses desde julho, quando uma decisão aparentemente simples deflagrou a maior crise do governo Cláudio Castro. O que parecia um ato de autoridade se revelou um erro de cálculo que mudou o jogo político no Rio de Janeiro.

No dia 3 de julho de 2025, conforme publicação em edição extra do Diário Oficial (Diário do Rio), Rodrigo Bacellar demitiu Washington Reis da Secretaria de Transportes enquanto Castro cumpria agenda em Portugal. Um movimento que expôs mais sobre a natureza do poder político do que qualquer análise acadêmica.

A anatomia de um Erro Político

Bacellar e Washington Reis são “desafetos declarados” e Bacellar é “possível concorrente no próximo pleito”, segundo reportagem do Extra. A demissão não foi administrativa – foi um lance político calculado que saiu pela culatra. Castro chamou a atitude de Bacellar de “intempestiva” e disse que ela “rachou o grupo político aliado”, conforme noticiado pela CartaCapital. Mais revelador ainda: Flávio Bolsonaro ficou “irritado com a demissão de Washington — assinada e publicada por Bacellar”, de acordo com o Metrópoles. A matemática é cruel: Bacellar ganhou um inimigo declarado (Washington Reis), irritou um aliado nacional importante (Flávio Bolsonaro) e “confirmou o racha com Barcellar, agravado nos últimos meses” (CartaCapital) – tudo para demonstrar uma autoridade que, na prática, só durava enquanto Castro estivesse fora do país.

O Preço da Traição mal calculada

A exoneração “intensifica a disputa política no estado” e “ocorre em um contexto de crise interna no governo”, reportou o Monitor Mercantil. Washington Reis não era apenas um secretário – controlava Duque de Caxias, importante base eleitoral na Baixada Fluminense com quase 500 mil eleitores. Demiti-lo significava entregar essa base territorial para a oposição. Pior ainda: ao agir durante a ausência de Castro. O timing ficou marcado como oportunismo político.

A Lógica da sobrevivência política

O caso fluminense ilustra uma regra não escrita da política brasileira: toda traição política deve ser calculada com precisão cirúrgica. Bacellar violou essa regra ao agir por impulso, não por estratégia. A política “ama” a traição porque ela força reequilíbrios necessários, mas apenas quando bem executada. Uma traição mal calculada não destrói apenas a vítima – destrói principalmente quem a executa. Apesar de ter sido reeleito por unanimidade para presidência da ALERJ em fevereiro de 2025 (ALERJ), com todos os 70 votos dos deputados, Bacellar hoje encontra-se politicamente isolado para voos maiores.

O Tabuleiro Atual

Seis meses depois da demissão que deflagrou a crise, o cenário se reconfigurou completamente. Castro recuperou-se parcialmente ao retomar alianças históricas com sua “família política” original – Eduardo Cunha, Hugo Leal e Arthur Lira – buscando blindagem contra eventual cassação pelo TSE. Bacellar consolidou controle absoluto da ALERJ mas tornou-se persona non grata para a base bolsonarista e para o grupo de Washington Reis na Baixada. Sua candidatura a governador em 2026, antes considerada viável, agora enfrenta resistências em múltiplas frentes.

Quando a traição trai o traidor

A demissão de Washington Reis “intensificou a disputa política no estado” (Monitor Mercantil) de forma irreversível. O que Bacellar imaginou como demonstração de autoridade virou lição sobre os riscos do cálculo político amador. Seis meses depois, Castro se reestabilizou via família política histórica e Bacellar – apesar de controlar a ALERJ – encontra-se politicamente diminuído para ambições maiores. A política fluminense sempre foi laboratório das dinâmicas nacionais. A lição que fica é cristalina: a traição continua sendo ferramenta poderosa na política brasileira, mas apenas nas mãos de quem domina sua gramática complexa. Bacellar descobriu da pior forma que existe algo pior que ser traído: é trair mal. No primeiro caso, você pode ser vítima. No segundo, você é apenas incompetente. E a política brasileira não perdoa incompetência – ainda mais quando ela vem disfarçada de esperteza.

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