Usina está localizada na cidade de Macaé, onde várias outras termelétricas estão sendo construídas
Redação
RIO DE JANEIRO (RJ) — A Âmbar Energia, empresa do grupo J&F Investimentos, deu mais um passo na estratégia de ampliar sua presença no mercado de geração térmica ao anunciar a compra da usina termelétrica Norte Fluminense, até então controlada pela francesa EDF. O valor da operação, segundo fontes do mercado, ficou na faixa de R$ 1,5 bilhão a R$ 2 bilhões, considerando ajustes de dívidas e contratos de longo prazo, e reforça o movimento de redesenho do mapa da energia no país.
Detalhes da operação e perfil da usina
Localizada no norte do estado do Rio de Janeiro, a Norte Fluminense é uma usina a gás natural de grande porte, com capacidade instalada de aproximadamente 1.300 MW, suficiente para atender milhões de consumidores conectados ao Sistema Interligado Nacional (SIN) em períodos de maior demanda. O ativo é considerado estratégico por sua posição próxima à malha de gás da Bacia de Campos e por contar com infraestrutura consolidada, contratos de energia e histórico de alta disponibilidade operacional.
A aquisição se insere em um movimento de reconfiguração do portfólio da EDF no Brasil, que vem priorizando projetos renováveis e de menor intensidade de carbono, enquanto reduz exposição em ativos térmicos convencionais. Para a Âmbar, que já vinha ampliando sua atuação em térmicas no Rio de Janeiro e em outros estados, a incorporação da Norte Fluminense consolida um corredor de geração a gás em uma região vista como chave para a segurança do sistema elétrico brasileiro.
Estratégia da Âmbar e avanço da J&F na energia
Controlada pela J&F, holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista, a Âmbar Energia vem se posicionando como um dos principais players privados na geração de energia no Brasil, com atuação em térmicas, usinas renováveis e contratos estruturados para grandes consumidores. Nos últimos anos, a companhia fechou uma série de aquisições de usinas a gás e contratos de fornecimento, especialmente no Sudeste, aproveitando a maior disponibilidade de gás natural e o ambiente regulatório favorável à expansão de fontes firmes.
A estratégia do grupo combina ativos de geração com contratos de longo prazo na indústria e no agronegócio, segmento em que a J&F tem forte presença por meio da JBS e de outras empresas. Ao ampliar a base térmica, a Âmbar busca garantir energia previsível para clientes intensivos em consumo, reduzir exposição a oscilações hidrológicas e capturar oportunidades em leilões e no mercado livre de energia.
Quantas termelétricas o Brasil tem e qual sua capacidade
O Brasil possui hoje centenas de termelétricas em operação, somando diferentes tecnologias e combustíveis, como gás natural, óleo combustível, óleo diesel, carvão mineral e biomassa, cadastradas na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Em termos de potência, as usinas térmicas respondem por algo em torno de 45 GW a 50 GW de capacidade instalada, o que representa cerca de 20% a 25% da potência total da matriz elétrica brasileira, que já supera 210 GW em 2025.
Dentro desse conjunto, as térmicas a gás natural – segmento em que se insere a Norte Fluminense – ocupam lugar de destaque, com algo em torno de 17 GW a 20 GW de potência, distribuídos entre usinas de grande porte, como as localizadas no Rio de Janeiro, e projetos de médio e pequeno porte em diferentes estados. Em média, as térmicas brasileiras variam bastante de tamanho: há unidades menores, com menos de 50 MW, e grandes complexos com mais de 1.000 MW, o que gera uma capacidade média na faixa de 100 MW a 200 MW por usina, dependendo do recorte considerado.
Quanto as termelétricas produzem de energia
Embora representem uma fatia menor da capacidade total em comparação às fontes renováveis, as termelétricas têm um papel desproporcionalmente relevante em momentos de seca e de maior consumo. Em anos de operação mais intensa, a geração térmica já respondeu por algo entre 100 TWh e 120 TWh de energia, o que equivale a cerca de 15% a 20% da produção elétrica do país.
O volume efetivo de energia produzida depende do chamado fator de capacidade, que no caso das térmicas pode variar bastante conforme o despacho pelo Operador Nacional do Sistema (ONS). Enquanto algumas usinas funcionam como backup e operam poucas horas por ano, outras, como grandes térmicas a gás em regiões estratégicas, podem operar com fatores de capacidade na casa de 40% a 60%, produzindo entre 500 GWh e mais de 1.000 GWh anuais por unidade. No caso de um ativo do porte da Norte Fluminense, a operação em regimes mais elevados pode significar a entrega de vários TWh por ano ao SIN.
Papel das térmicas na segurança energética
A expansão da geração térmica vem sendo apontada por especialistas como um dos pilares da segurança energética brasileira, em complemento à forte base renovável de hidrelétricas, eólicas e solares. Hoje, mais de 80% da matriz elétrica em termos de capacidade instalada ainda é composta por fontes renováveis, mas a variabilidade de vento, sol e chuvas torna necessário o apoio de usinas térmicas para garantir estabilidade no fornecimento, sobretudo em períodos de estiagem prolongada.
Nesse contexto, as térmicas a gás natural são vistas como um elo importante da transição energética, especialmente em regiões com infraestrutura de gás já estabelecida, como o litoral do Rio de Janeiro. Apesar das emissões de carbono, essas usinas tendem a emitir menos que térmicas a óleo ou carvão, e podem operar como complemento à expansão das renováveis, reduzindo o risco de apagões e a necessidade de acionamento de fontes mais caras e mais poluentes.
Impacto da compra para o Rio e para o setor
Para o estado do Rio de Janeiro, a manutenção e reforço de grandes térmicas como a Norte Fluminense significa preservação de empregos diretos e indiretos, arrecadação de impostos e continuidade de investimentos em infraestrutura de gás e energia. A presença de um grupo com capital robusto e apetite de expansão, como a Âmbar, tende a estimular novos projetos de eficiência, modernização de equipamentos e contratos com grandes consumidores, incluindo indústria, portos e empresas de óleo e gás.
No plano nacional, a operação confirma uma tendência de consolidação do setor de geração, em que grupos privados com maior escala compram ativos de multinacionais que buscam reposicionar seus portfólios globalmente. A conclusão do negócio ainda depende de aprovações regulatórias, incluindo o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e a Aneel, mas o mercado já enxerga a transação como um movimento consistente com a necessidade de o Brasil combinar expansão renovável com fontes térmicas firmes e competitivas.


