Trump usa guerra às drogas como fachada para controlar o petróleo venezuelano, conter China e Rússia e transformar a América Latina em quintal dos EUA
Da Redação
BRASILIA (DF) — A operação militar dos Estados Unidos na madrugada de sábado, 3 de janeiro de 2026, que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, vem sendo oficialmente justificada por Washington como parte do combate ao narcotráfico e da defesa da democracia na América Latina. Especialistas em geopolítica, no entanto, apontam que o episódio se insere em uma disputa mais ampla por hegemonia global e controle de recursos estratégicos, em especial o petróleo venezuelano.
Acusações de narcotráfico sob suspeita
Em análise recente, o economista José Kobori destacou que o pretexto de tráfico de drogas contra Maduro carece de consistência quando comparado ao histórico de aliados dos EUA na região. Ele lembra que, em 1991, a inteligência americana incluiu o então político colombiano Álvaro Uribe entre os principais narcotraficantes do país, apontando sua proximidade com Pablo Escobar e o Cartel de Medellín, mas isso não impediu que Uribe fosse recebido na Casa Branca em 2009 e condecorado com a Medalha Presidencial da Liberdade.
Kobori também cita o caso de Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras, aliado de Washington, condenado por tráfico internacional de centenas de toneladas de cocaína e posteriormente beneficiado por um perdão presidencial de Donald Trump, bem como denúncias envolvendo a Noboa Trading, empresa da família do presidente equatoriano Daniel Noboa, acusada de utilizar contêineres de banana para enviar cocaína à Europa sem reação equivalente dos Estados Unidos. Para o economista, esses episódios ilustram uma seletividade política nas acusações de narcotráfico, que tendem a recair com mais força sobre governos considerados desalinhados aos interesses americanos.
Venezuela fora do mapa da cocaína
Outro ponto ressaltado por Kobori é que dados internacionais sobre a produção de cocaína não colocam a Venezuela entre os principais fabricantes da droga, posição ocupada por Colômbia, Peru e Bolívia, enquanto os Estados Unidos figuram como o maior mercado consumidor. Parte da própria imprensa norte-americana já questionou a existência do chamado “Cartel de Los Soles”, organização que serviria de base às acusações contra Maduro, tratando o rótulo como construção política da era Trump.
Na avaliação do analista, a insistência no discurso antidrogas em relação à Venezuela contrasta com a tolerância demonstrada em casos que envolvem parceiros estratégicos dos EUA, o que reforçaria a percepção de que o narcotráfico funciona mais como justificativa de conveniência do que como motivação real. Esse padrão, segundo ele, se repete também em temas como combate ao terrorismo e defesa dos direitos humanos, frequentemente modulados conforme o alinhamento geopolítico dos governos envolvidos.
Petróleo, petrodólar e disputa por hegemonia
Para além do discurso oficial, Kobori interpreta a ofensiva contra Caracas como parte de uma disputa central pelos recursos energéticos e pelo desenho da ordem internacional. A Venezuela, detentora de uma das maiores reservas de petróleo do mundo, aprofundou laços com Rússia e China nas últimas décadas, passando a vender parte de seu petróleo em yuan após as sanções econômicas impostas por Washington a partir de 2014, movimento visto como um desafio direto ao sistema do petrodólar.
De acordo com o economista, ao ameaçar a hegemonia do dólar no comércio global de energia e estreitar laços com rivais estratégicos dos EUA, Caracas se tornou alvo prioritário em um momento em que o poder americano enfrenta contestação crescente. A presença chinesa na América do Sul, que já superou os Estados Unidos como principal parceira comercial de boa parte dos países da região, reforça a percepção, em Washington, de que manter o controle sobre o petróleo venezuelano é crucial para frear o avanço de Pequim e Moscou em seu “quintal” histórico.
Do “Big Stick” ao “Corolário Trump”
Na leitura de Kobori, a atual estratégia dos EUA atualiza, em nova versão, a tradicional Doutrina Monroe e o chamado “Big Stick” de Theodore Roosevelt, que no início do século XX fundamentaram intervenções militares diretas na América Latina sob o argumento de ordem e proteção da região contra potências externas. Em sua recente doutrina de segurança nacional, apelidada de “Corolário Trump”, o presidente americano teria reafirmado a ideia de que “a América é dos americanos”, defendendo explicitamente o uso da força para resguardar os interesses de empresas e corporações estadunidenses no continente.
Essa mudança é interpretada como um recuo momentâneo nas ambições globais, com foco renovado no continente americano após o insucesso de Washington em impor seus objetivos em múltiplas frentes. A ofensiva contra a Venezuela, nesse contexto, seria um movimento para reordenar a América Latina como área de influência direta, reduzindo o espaço de atuação de potências como China e Rússia nos mercados e recursos naturais da região.
Risco de escalada e impacto para a América do Sul
Kobori alerta que a ação dos EUA apaga qualquer vestígio de respeito ao direito internacional e abre um precedente perigoso para intervenções contra outros países latino-americanos que não se alinhem a Washington. Sem regras claras, prevalece a lógica da força, o que, em sua visão, aproxima o cenário global de uma dinâmica semelhante à da Idade Média, em que a “lei do mais forte” passa a ditar os rumos da política internacional.
O economista avalia que potências capazes de contrabalançar o poder militar americano, como China e Rússia, podem tentar impor limites a esse avanço, sob pena de o conflito escalar para um confronto mais amplo, com risco de uma terceira guerra mundial. Ele destaca ainda que a resposta dos países sul-americanos, em especial do Brasil nas primeiras 48 horas após o ataque, será decisiva para definir se a região caminhará para maior autonomia e integração ou se aceitará a condição de “quintal” geopolítico dos Estados Unidos.


