quarta-feira, 10 de junho de 2026
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Flamengo de luto: goleada e demissão

Goleada histórica não evita saída relâmpago de Filipe Luís, e Flamengo aposta em Jardim para final contra o Fluminense

 

RIO DE JANEIRO (RJ) — O mais paradoxal capítulo da história recente do futebol brasileiro foi escrito na madrugada desta terça-feira (3) nos corredores do Maracanã. Cerca de uma hora após o Flamengo aplicar uma goleada histórica de 8 a 0 no Madureira e carimbar vaga na final do Campeonato Carioca, o técnico Filipe Luís foi demitido em uma conversa que não durou mais de 30 segundos com o diretor de futebol José Boto.

A decisão, que pegou o treinador de surpresa e chocou a Nação Rubro-Negra, expõe a fragilidade das relações na gestão de Luiz Eduardo Baptista (Bap) e escancara o abismo entre os resultados em campo e os bastidores do clube.

 

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O contexto da queda: quando vencer não é suficiente

Filipe Luís deixa o comando com números que poucos treinadores na história do Flamengo alcançaram. Foram 101 jogos, 63 vitórias, 23 empates e apenas 15 derrotas, um aproveitamento de quase 70% e cinco títulos conquistados em apenas 18 meses de trabalho: Copa do Brasil 2024, Supercopa 2025, Carioca 2025, Libertadores 2025 e Brasileirão 2025.

O ex-lateral sai empatado com Jorge Jesus e Flávio Costa como o segundo técnico mais vitorioso da história do clube.

Mas o futebol é feito de memória curta. Em 2026, o time perdeu as finais da Supercopa do Brasil para o Corinthians e da Recopa Sul-Americana para o Lanús, acumulando cinco derrotas em apenas três meses de temporada — o pior início do clube nos últimos dez anos. Foi o suficiente para que Bap e Boto selassem o destino do treinador.

 

Os 30 segundos que encerraram uma era

A cena da demissão é digna de roteiro de suspense. Após a goleada, Filipe Luís concedeu entrevista coletiva no Maracanã sem saber que aquelas seriam suas últimas palavras como técnico do Flamengo. Ao deixar o auditório, foi informado de que José Boto precisava falar com ele.

Os dois se reuniram em uma sala. Não houve justificativas, não houve despedida. Menos de 60 segundos depois — relatos apontam apenas 30 segundos — Filipe estava desempregado.

O elenco já havia deixado o estádio. O treinador não conseguiu se despedir dos atletas no vestiário. A cena, classificada por torcedores como “amadora” e “desrespeitosa”, só seria amenizada no dia seguinte, quando Filipe visitou o Ninho do Urubu e passou duas horas se despedindo de funcionários e jogadores.

 

A reação da torcida: “diretoria amadora”

Nas redes sociais, o impacto foi imediato. Segundo levantamento da Nexus — Pesquisa e Inteligência de Dados, o volume de citações a Filipe Luís aumentou mais de 3.400% entre a noite de segunda e a manhã de terça.

“Diretoria amadora, sem visão de longo prazo e, o pior, falta de respeito com ídolos. Vocês acham que as cobranças vão acabar? Só vai piorar”, disparou um torcedor no X. “O mínimo que eu esperava era uma despedida com a torcida no estádio cheio, e não uma notinha de rede social”, completou outro.

A ansiedade também se refletiu nas buscas: mais de 10 mil pesquisas sobre o novo técnico foram registradas logo após o anúncio, um termômetro da inquietação rubro-negra.

 

Leonardo Jardim: o “linha dura” que prometeu não vir

A diretoria não perdeu tempo. Horas depois da demissão, o Flamengo acertou com o português Leonardo Jardim, ex-Cruzeiro, que desembarcou no Rio de Janeiro na noite de terça e assinou contrato até o fim de 2027.

A escolha não é casual. Jardim, de 51 anos, construiu carreira sólida na Europa, com destaque para o Monaco, onde revelou Mbappé e conquistou o Campeonato Francês em 2016/17. No Cruzeiro, em 2025, levou o time ao terceiro lugar no Brasileirão e à semifinal da Copa do Brasil.

Mas sua chegada ao Rio traz uma polêmica incômoda. Em agosto de 2025, Jardim foi enfático: “No Brasil, eu só vou treinar o Cruzeiro. Isso é que é uma verdadeira notícia. Não vou treinar outro clube no Brasil. Vou à Grécia e sou Olympiakos. Vou ao Catar e sou Al Rayyan. Na França, sou Monaco. E no Brasil, sou Cruzeiro”.

A declaração, que voltou a circular como pólvora após o acerto com o Flamengo, já rendeu críticas e a pecha de “Judas” entre torcedores cruzeirenses, além de levantar questionamentos sobre a coerência do treinador . A diretoria rubro-negra, no entanto, minimiza a polêmica e aposta no perfil “linha dura” do português para impor disciplina a um elenco que, segundo diagnósticos internos, apresentava sinais de relaxamento após as conquistas de 2025.

 

Adeus, posse de bola: o novo estilo de jogo

Em campo, a mudança promete ser radical. Filipe Luís priorizava a posse de bola — o Flamengo foi o time com maior posse no Brasileiro 2025. Jardim, por outro lado, aposta em transições rápidas e pressão na saída de bola adversária, característica de suas equipes no Monaco e no Cruzeiro.

“O importante da posse, na minha opinião, é se é uma posse estéril ou não. Posso no campo do adversário, entrelinhas. Aí sim”, disse Jardim certa vez, definindo sua filosofia.

Essa mudança de paradigma deve impactar diretamente alguns jogadores. Enquanto pontas velozes como Luiz Araújo, Plata e Everton Cebolinha podem se beneficiar, centroavantes de área como Pedro podem perder espaço — no Cruzeiro, Jardim não hesitou em deixar Gabigol no banco e transformar Kaio Jorge em artilheiro do Brasileiro.

Arrascaeta, que oferece menos mobilidade que Matheus Pereira, também pode sentir a diferença. O Flamengo aposta, no entanto, na capacidade de Jardim de se adaptar ao elenco, como fez no Olympiacos, onde precisava dominar a liga local com um jogo mais propositivo.

 

O elenco: entre o apoio a Filipe e a expectativa por Jardim

A demissão estremeceu o vestiário. Jogadores como Arrascaeta, Bruno Henrique e Léo Pereira — que foram colegas de Filipe em campo — usaram as redes sociais para prestar homenagens.

“Você sempre vai ser um dos nossos, gratidão infinita. Às vezes você nunca saberá o valor do momento até que se torne uma lembrança”, escreveu Arrascaeta. Bruno Henrique completou: “Foi ídolo como jogador, e como treinador também. Histórico. Nada e ninguém irá apagar a sua história”.

Mas nem tudo eram flores. Nos bastidores, havia insatisfações pontuais. Everton Cebolinha, com poucos minutos, chegou a externar desejo de deixar o clube. Luiz Araújo também perdeu prestígio. E a relação de Filipe com a diretoria, especialmente após as negociações arrastadas de renovação em dezembro, nunca foi das mais fluidas.

Havia ainda relatos de indisciplinas pontuais e um certo relaxamento de alguns atletas, o que pesou na escolha por Jardim, visto como capaz de impor ordem.

 

A final no horizonte: domingo tem Fla-Flu decisivo

Com a casa em frangalhos, o Flamengo precisa se reconstruir em tempo recorde. A final do Campeonato Carioca contra o Fluminense está marcada para domingo (8), às 18h, no Maracanã.

Leonardo Jardim comandará seu primeiro treino nesta quarta (4) e deve estar à beira do campo no clássico. O desafio é duplo: implementar minimamente suas ideias em poucos dias e, principalmente, recompor o ânimo de um elenco que perdeu um líder.

O Fluminense, que acompanha de fora a crise rubro-negra, tenta manter o foco. Mas é impossível ignorar o terremoto do lado de lá. O Fla-Flu decisivo ganha contornos de incógnita: qual Flamengo entrará em campo? O que goleou por 8 a 0 ou o que se despedaçou nos 30 segundos mais longos da história recente do clube?

 

Conclusão: a gestão profissional em xeque

A demissão de Filipe Luís escancara uma contradição incômoda na “gestão profissional” que o Flamengo de Bap tanto propaga. Tratar um ídolo multicampeão com uma conversa de 30 segundos na madrugada, sem despedida digna, sem o respeito que a história do treinador com o clube exigia, soa mais a amadorismo do que a profissionalismo.

O clube que investiu pesado na janela, que se prepara para mais uma final, agora precisa administrar não apenas a pressão por resultados, mas a desconfiança de uma torcida que viu um de seus filhos mais queridos ser descartado como peça sem valor.

Enquanto isso, no Fluminense, a expectativa é de aproveitar o caos alheio. No Flamengo, a esperança é que Leonardo Jardim consiga, em poucos dias, fazer o que Filipe Luís fez em 18 meses: vencer. O futebol brasileiro segue seu curso, implacável e surpreendente, mostrando que, por aqui, nem mesmo uma goleada histórica garante o emprego de um treinador ídolo e multicampeão.

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