Fechamento de Ormuz já pressiona preço da gasolina no Brasil
BRASÍLIA (DF) — A escalada militar no Oriente Médio, com os ataques de Israel e Estados Unidos ao Irã e a consequente retaliação iraniana, colocou o mundo em alerta. O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde escoa 20% de todo o petróleo consumido no planeta, já fez o barril do Brent disparar e acendeu um sinal de alerta no bolso do consumidor brasileiro .
O contra-ataque iraniano foi rápido e direto ao ponto nevrálgico da economia global. No último domingo (1º de março), Teerã anunciou o bloqueio total do Estreito de Ormuz à navegação, alertando que qualquer embarcação que tentasse atravessar seria alvo de ataques . A decisão veio como resposta às ações militares de Israel e EUA no último dia 28 de fevereiro, que resultaram na morte de líderes políticos e militares do país . Cerca de 150 navios petroleiros já estão parados na região, e gigantes do setor, como a Maersk, suspenderam suas operações por lá .
O impacto foi imediato nas cotações internacionais. O preço do Brent, referência global, acumulou alta expressiva, fechando a segunda-feira (2) em forte alta e rondando os US$ 80 por barril, o maior patamar desde janeiro de 2025 . Mas o que isso representa para o Brasil, um país que busca a autossuficiência, mas ainda depende de importações?
A estratégia da Petrobras: paciência e monitoramento
Diante da volatilidade, a estatal brasileira adotou, como de costume, uma postura cautelosa. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que a empresa monitora os desdobramentos, mas que, historicamente, não repassa a volatilidade súbita dos preços internacionais para o mercado doméstico .
“Aumenta o preço do petróleo, com certeza, mas a Petrobras não costuma repassar a volatilidade abrupta”, disse Magda em entrevista . A informação foi corroborada por fontes internas da companhia, que indicaram que a semana será de observação, com qualquer anúncio sobre reajustes ficando para a próxima semana, dependendo também da taxa de câmbio .
Claudio Schlosser, diretor executivo de Logística da Petrobras, reforçou que a empresa tem alternativas. Segundo ele, a maioria das importações vem de fora da região de conflito, e as poucas rotas existentes que passam pelo Oriente Médio podem ser redirecionadas . “A Petrobras tem rotas alternativas fora da zona de conflito, o que nos dá segurança e custos competitivos para nossa operação, preservando nossas margens”, explicou .
O paradoxo do petróleo: exportador que precisa importar
Apesar de ser um grande produtor e exportador de petróleo bruto — o que faz com que as ações da Petrobras subam em momentos de alta das cotações —, o Brasil enfrenta uma particularidade: precisa importar certos volumes e derivados para abastecer o mercado interno.
Jorge Gabrich, analista de óleo e gás do Scotiabank para a América Latina, explica que o Brasil importa cerca de um quarto de todo o diesel que consome, e o Oriente Médio é um fornecedor chave . “Uma interrupção no fluxo de produtos refinados pressionaria os custos de paridade de importação e, consequentemente, os preços locais”, alertou o analista ao Valor Econômico .
Rivaldo Moreira Neto, sócio-diretor da A&M Infra, é ainda mais direto. Para ele, se o conflito se prolongar e os preços do petróleo permanecerem elevados, o repasse será inevitável. “Se o conflito durar semanas e o preço do petróleo se mantiver em alta, a Petrobras certamente terá que repassar parte desses custos para o mercado interno”, afirmou .
O fator logístico e o risco de desabastecimento
Mais do que o preço da commodity, a logística é a grande preocupação. O fechamento de Ormuz não afeta apenas o petróleo dos países do Golfo, mas todo o sistema de fretes e seguros. As principais seguradoras marítimas mundiais, como a NorthStandard e a American Club, já emitiram avisos de cancelamento de cobertura para riscos de guerra na região .
Marcus D’Elia, sócio da Leggio Consultoria, alerta que o pior cenário seria a incerteza sobre o cronograma de reabertura do estreito, o que poderia levar a uma escassez estrutural de petróleo no mundo. “No pior cenário, o Brent pode oscilar entre US$ 80 e US$ 100 o barril, dependendo de quanto tempo o estreito ficar fechado” . Rafaela Guedes, sênior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), complementa que o fluxo de petróleo pelo estreito já está virtualmente paralisado, mesmo sem um bloqueio total formal, pois armadores temem os riscos e as seguradoras retiraram a cobertura .
Para completar o cenário interno, uma fonte do setor ouvida pelo Valor lembrou que a Petrobras tem três paradas programadas para manutenção em refinarias-chave para a produção de diesel a partir de abril. Isso pode aumentar a necessidade de importações justamente em um momento de extrema volatilidade internacional, repetindo o movimento visto no quarto trimestre do ano passado .
O governo brasileiro, por ora, observa. O consumidor, por sua vez, fica na torcida para que a “paciência” da Petrobras e a capacidade de redirecionamento logístico sejam suficientes para segurar a bomba de combustível, enquanto o fogo continua aceso do outro lado do mundo.


