Quando os políticos progressistas vão entrar no jogo?
Marco Antônio Marinho Santos
Nas ruas de terra batida, nos becos escondidos, nos barracos de madeira e nas casas de alvenaria inacabada, uma guerra silenciosa está sendo travada. Não é uma guerra de armas – embora elas também estejam presentes – mas uma batalha pelas mentes e corações.
Enquanto escrevo estas linhas, pastores batizam novos fiéis, coaches vendem sonhos de riqueza fácil e milicianos oferecem “proteção”.
E o progressismo?
Muitas vezes está ocupado demais discutindo a próxima tese acadêmica ou planejando o próximo protesto.
A verdade dura é esta: nas periferias brasileiras, quem resolve problemas ganha lealdade. As igrejas evangélicas entenderam isso primeiro. Elas não ficam esperando o Estado. Criaram redes de apoio que vão desde a sopa no final do dia até tratamento para dependentes químicos. Viraram família para quem não tem família.
Enquanto isso, muitos militantes progressistas ainda chegam com panfletos sobre consciência de classe quando o que as pessoas precisam é de emprego. Os coaches de internet, esses novos gurus do capitalismo selvagem, também souberam ler a sala. Eles oferecem o que as pessoas desesperadas querem ouvir: que a riqueza está a um curso de R$29,90 de distância.
É mentira? Claro que é!
Mas é uma mentira sedutora, envolta em linguagem de autoajuda e exemplos (falsos) de gente que “deu a volta por cima”.
Do outro lado, o que oferecemos? Muitas vezes, apenas críticas ao sistema. Importantes, sim, mas que não enchem a barriga de ninguém.
E as milícias? Ah, essas sim entenderam o jogo. Enquanto nós discutimos violência estrutural – e temos razão em fazê-lo – eles oferecem “solução” imediata.
É falsa, é criminosa, mas está lá, presente no cotidiano.
O pai de família que vê o traficante dando sopa na esquina e o policial extorquindo os comerciantes não quer ouvir sobre a natureza complexa da segurança pública. Quer saber se seus filhos vão voltar vivos da escola.
Não estou aqui para dizer que devemos abandonar nossas críticas estruturais ou nossos princípios. Mas precisamos urgentemente aprender a falar a língua das ruas.
O funk não é alienação – é poesia marginal. O grafite não é vandalismo – é arte insurgente. O jovem que quer um iPhone não está “consumista” – está querendo o mínimo de dignidade que a sociedade promete a todos mas entrega a poucos.
Temos exemplos brilhantes do que pode ser feito.
Os bancos comunitários que desafiam o sistema financeiro. As cooperativas que mostram que outro tipo de economia é possível. Os coletivos culturais que transformam dor em arte. Mas precisamos ir além, muito além.
Precisamos de influencers progressistas que saibam falar de dinheiro sem vergonha. De líderes comunitários que unam teoria e prática. De políticos que passem mais tempo nas comunidades do que em gabinetes com ar-condicionado. A revolução não será televisionada, mas precisa ser tuitada, tiktokeada e cantada nos bailes funk.
O tempo da leniência acabou.
Ou aprendemos a jogar o jogo como ele é jogado – sem trair nossos princípios – ou seremos relegados ao papel de espectadores de nossa própria derrota.
As comunidades não podem esperar. Elas estão sendo conquistadas agora, neste exato momento.
A questão que fica é: vamos continuar assistindo ou vamos finalmente entrar no jogo?


