A luta coletiva não pode ser substituída por histórias individuais de superação
Marco Antônio Marinho Santos
A história jurídica brasileira é marcada por um padrão perverso: a celebração da exceção como se fosse liberdade. A carta de alforria, no período escravocrata, não representava o fim da escravidão, mas sim a concessão de liberdade individual dentro de um sistema que continuava a explorar e desumanizar milhões. Era um alívio pontual, uma válvula de escape que, ao invés de mobilizar pela abolição, reforçava a ideia de que a liberdade era uma dádiva, não um direito. Hoje, esse mesmo padrão se repete, travestido de modernidade e empreendedorismo.
A flexibilização das relações de trabalho, intensificada pelas reformas recentes, corroeu a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e empurrou o trabalhador para uma informalidade disfarçada de autonomia. A uberização, símbolo máximo dessa nova era, vende a ideia de que o trabalhador é dono de seu tempo, de sua rota, de sua renda. Mas essa liberdade é ilusória. O motorista de aplicativo, o entregador de comida, o freelancer digital — todos estão submetidos a algoritmos impessoais, jornadas exaustivas e ausência total de garantias. A promessa de autonomia esconde uma nova forma de servidão, agora invisível aos olhos da lei. Mais grave ainda é o fenômeno do “job” das meninas, expressão que circula nas redes sociais como sinônimo de pequenos trabalhos, mas que muitas vezes encobre prostituição e exploração sexual. Jovens mulheres, empurradas pela falta de oportunidades e pela precarização extrema, vendem sua imagem, seu corpo, sua presença, sob o rótulo de liberdade empreendedora. A lógica é a mesma da carta de alforria: uma exceção celebrada que não ameaça o sistema, mas o reforça. A liberdade individual é exaltada enquanto a estrutura coletiva de opressão permanece intacta.
O campo progressista, que historicamente foi a voz do trabalhador, perdeu espaço para narrativas mais sedutoras e afetivas. Igrejas evangélicas oferecem acolhimento, pertencimento e uma linguagem acessível. A extrema-direita ocupa o imaginário com promessas de ordem, mérito e sucesso individual. Enquanto isso, os setores progressistas se afastaram da vida concreta do povo, muitas vezes se refugiando em discursos técnicos ou moralistas, incapazes de dialogar com quem vive a urgência da sobrevivência.
É preciso resgatar a primazia da comunicação com o trabalhador. E isso exige mais do que slogans: exige escuta, presença e linguagem popular. O campo progressista precisa voltar a ocupar os espaços onde o povo está — nas periferias, nos cultos, nas redes sociais, nas feiras, nos aplicativos. Precisa falar de trabalho sem vergonha, sem jargão, sem abstração. Precisa disputar o imaginário com símbolos que façam sentido para quem vive a informalidade, a insegurança, o medo do amanhã. E essa disputa não se dá apenas na política institucional — ela se dá, sobretudo, na cultura. É na música, no teatro, na literatura, no audiovisual, na estética cotidiana que se moldam os afetos e os valores. A extrema-direita e os setores religiosos conservadores entenderam isso com clareza: trabalham com o medo, com o pecado, com a promessa de salvação. O campo progressista precisa trabalhar com o desejo, com a beleza, com a esperança. Precisa investir em cultura como ferramenta de transformação, não como ornamento. A cultura é o campo de embate político mais profundo, onde se decide o padrão coração e mentes.
A luta coletiva não pode ser substituída por histórias individuais de superação. Direitos não são favores nem conquistas pessoais — são pactos sociais que garantem dignidade. Celebrar exceções é perpetuar a regra da exploração. A liberdade verdadeira não é a carta de alforria — é o fim da escravidão. E esse fim só virá com organização, solidariedade, coragem de disputar cada espaço onde o trabalhador ainda resiste — e com cultura que inspire, mobilize e transforme.


