Secretário do Tesouro defende enfrentamento do crescimento da despesa pública e agenda “moralizante” para conter distorções no funcionalismo
SÃO PAULO (SP) — O Brasil vive uma conjuntura mais propícia para acelerar o ajuste fiscal e construir superávits primários maiores, abrindo caminho para a estabilização da relação dívida/PIB. A avaliação é do secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, que participou nesta semana do evento Rumos 2026, promovido pelo Valor Econômico em São Paulo .
Segundo Ceron, a discussão sobre o equilíbrio das contas públicas passa obrigatoriamente pelo enfrentamento do ritmo de crescimento da despesa dos gastos públicos. Isso inclui, necessariamente, uma nova reforma da Previdência, cujo déficit saltou de 1% do PIB há uma década para 3% do PIB atualmente .
“Uma década atrás, nosso déficit previdenciário era de 1% do PIB. Atingimos 3% do PIB no final de 2025. Crescemos dois pontos percentuais em uma década”, alertou Ceron, lembrando que, sem esse resultado negativo na Previdência, o país já estaria operando com superávit. “Em 2025, fechamos com 2,5% de superávit para o orçamento fiscal. Exceto previdência, o resultado do Tesouro é de R$ 260 bilhões, positivo”, completou .
O momento certo para o ajuste
Ceron rebateu críticas à abordagem gradualista adotada pela gestão petista para a consolidação fiscal. “As pessoas muitas vezes olham só para frente, pensam naquilo que é ideal. Mas olhando para trás, para os últimos dez, 20 anos, quanto do que se imaginou (como ideal) conseguiu ser implantado de fato?”, questionou .
Para o secretário, o país está mais bem equilibrado socialmente e do ponto de vista econômico. “Não precisa de uma nova PEC da transição. O desemprego está baixo, a inflação controlada e o crescimento, embora possa não ser aquilo que desejamos, é maior do que em muitos anos anteriores”, avaliou .
O principal desafio para 2027, segundo ele, é uma agenda forte de redução das despesas obrigatórias. “Basta mexer em alguns parâmetros do arcabouço, por exemplo o limite de 2,5% (de crescimento real do gasto obrigatório). Se for alterado, tem efeito a médio prazo muito relevante. Mexe em indicadores como o salário mínimo, que corrige uma das principais despesas da União, que é a previdenciária”, explicou .
O alvo nos supersalários
O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, também presente ao evento, afirmou que um dos temas prioritários da pasta neste ano no Congresso é retomar a discussão de uma agenda moralizante e de regulamentação dos chamados “supersalários” no funcionalismo público .
Durigan defendeu que o debate sobre a reforma administrativa deve começar no “andar de cima”, com a definição de uma regra nacional clara sobre os salários do funcionalismo. “É preciso ter uma regra nacional em que a gente diga de maneira muito clara quais são as opções, quais são as hipóteses juridicamente aceitáveis, constitucionalmente aceitáveis de ter pagamento de verba indenizatória”, afirmou .
Segundo ele, isso permitirá tanto confirmar o movimento recente do STF de “acabar com os penduricalhos” quanto dar uma regra uniforme para todo o país, evitando que diferentes estados adotem interpretações administrativas próprias para atrair carreiras .
Revisão de gastos sociais
Outro ponto abordado por Ceron foi a necessidade de organizar a rede de proteção social. “Alguns programas estão sobrepostos, ou têm muita fraude, beneficiários inelegíveis. É preciso organizar para evitar casos como o do BPC (Benefício de Prestação Continuada), que ainda não é despesa muito relevante, 1% do PIB, mas não pode continuar crescendo dois dígitos”, alertou .
A proposta em estudo é fusionar programas de assistência, rumo a um programa de renda mínima, mirando na melhoria da eficiência do gasto público.


